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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Alexandre Pinheiro Torres

 

alexandre pinheiro torres 

Nasceu em Amarante em 1921. Licenciado em Letras pela Universidade de Coimbra, foi, em 1965, convidado pela Universidade de Cardiff, na qual se viria a tornar catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. O facto político-cultural que o levou ao exílio conta-se entre os gestos de que mais se orgulhara em toda a sua vida: em 1965 é nomeado membro do Júri do Grande Prémio de Ficção atribuído pela Sociedade Portuguesa de Escritores e propõe a atribuição de tal prémio ao livro Luuanda, de Luandino Vieira, que à data estava preso no Tarrafal, acusado de terrorismo. A atitude levou Salazar a proíbi-lo de ensinar em Portugal, obrigando-o ao desterro em Cardiff, onde foi recebido de braços abertos por um professor que o marcaria profundamente: Stephen Reckert. Em 1970 fundou a primeira cadeira independente de Literatura Africana de Língua Portuguesa Portuguesa em universidades inglesas. Historiador de literatura, crítico literário, poeta, romancista, tem igualmente uma vasta produção espalhada por jornais e revistas portugueses. Foi ainda distinguido com vários prémios nas áreas da poesia e do ensaio, dos quais se destacam: Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores; Prémio de Ensaio Jorge de Sena da Associação de Escritores e Prémio de Ensaio Ruy Belo. Foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras de São Luís do Maranhão, no Brasil e recebeu ainda o título de Cidadão Honorário de São Tomé e Príncipe. Morreu em Agosto de 1999, vítima de doença prolongada, já reformado da Universidade Cardiff, onde deixou um testemunho de vida e de profissionalismo académico que nunca se apagará.


Preito

Alexandre Pinheiro Torres (1921-1999), tradutor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, professor de literatura portuguesa, literatura brasileira e literaturas africanas de expressão portuguesa, foi o maior filósofo peripatético que conheci. Dávamos grandes passeios ao domingo em Roath Park, um dos muitos parques de Cardiff, que o Alexandre não dispensava nas suas saudáveis passeatas meditativas. Cada caminhada valia um curso de literatura viva. Cada passo era devidamente medido pelo ritmo seguro da memória de um escritor que conheceu de perto alguns dos melhores escritores portugueses deste século, mas que com eles não partilha a mesma fama. Injustamente. O melhor elogio que posso fazer a um escritor que também foi professor é dizer que ele foi antes um notável professor que também foi escritor. Chegara eu a Cardiff em 1990 e o Alexandre resolveu adoptar-me como seu discípulo. Eu trazia na bagagem a pobre experiência de um jovem professor do ensino secundário formado na Faculdade de Letras de Lisboa. Desconfiado, o Alexandre quis ver primeiro com que linhas eu cosia o meu discurso. Na altura, eu julgava-me poeta e logo me aconselhou a desistir da ideia, tão debilitados eram os meus versos. (Agradeça-se de coração aberto a quem nos diz em boa hora que o que fazemos não tem futuro.) Queria então ser ensaísta e investigador e apresentei-lhe um primeiro texto para uma tese de doutoramento sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. O comentário foi iluminado: “Isto é uma merda! Vai esquecer tudo o que aprendeu na Faculdade de Letras, vai meter o estruturalismo na gaveta, e vamos começar tudo de novo. Primeiro é preciso reler os clássicos.” E assim me reeduquei. Hoje todos recordam mais o crítico literário e o escritor do que o professor Alexandre Pinheiro Torres. Porque este poucos portugueses conheceram e é pena, porque era o melhor de todos. Sempre senti que a obra literária de Alexandre Pinheiro Torres não iria nunca fazer justiça ao seu saber prático e livresco, quando o seu magistério era deveras singular. Só conheci outro filósofo assim, Agostinho da Silva, cujo saber estava sobretudo naquilo que dizia. A escrita de um filósofo assim é apenas uma síntese de uma obra que se grava na memória dos que tiveram o privilégio de aprender com ele. Ouvir um tal filósofo sabe a triunfo. As centenas de alunos britânicos do Professor Alexandre Pinheiro Torres jamais o esqueceram. Muitos escreveram à família, apresentando sentidas condolências. Quantos professores podem conquistar um aluno para além da morte?

Eu sei como te estimavam, como se divertiam nas tuas prelecções, como os ensinavas a ler, a escrever e a estudar, como tinham por ti aquela admiração especial que costumamos reservar aos professores que de facto mudaram alguma coisa na nossa vida. Foi a Maria Olga, tua companheira sobredivina, quem, com invejável coragem, me deu a notícia do teu desaparecimento. Pressentiste a grande vaga, como dizia o meu avô paterno que vais encontrar aí, no Monte Olimpo, a guardar rebanhos, e ainda pudeste deixar escritas as tuas últimas vontades, que respeitaremos. Ouço e leio as notícias sobre ti. Apesar das boas intenções, lá vão comentando com algumas incorrecções: fazem-te director de um inexistente “Departamento de Literatura Brasileira e Portuguesa” da Universidade de Cardiff, quando sabemos que, uma vez instalado, nunca quiseste dirigir o Departamento de Estudos Hispânicos, por isso significar menos horas de leitura e de escrita; fazem-te fundador da cadeira de Literatura Portuguesa no Reino Unido, quando criaste a primeira cadeira de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa; e alguns que tu desprezavas com razão, dizem agora que eram teus “amigos”, agora todos são teus “amigos”, quando sabemos que os teus verdadeiros amigos, aqueles que deveras estimavas, foram apenas Carlos de Oliveira e Alexandre O’Neill (apesar da zanga de 15 anos, recordava-lo sempre com grande saudade). Não levarás a mal que aqui deixe algumas confidências, porque é necessário fazer as contas com a história e porque não mereces que se acrescentem mais equívocos à tua própria história. Parece que agora vais ser lembrado acima de tudo pela tua ligação ao neo-realismo, para não falar das insinuações de seres um escritor comunista. Já suspeitávamos. Como vês, de nada te serve teres chegado ao fim da vida cansado destes preconceitos. De nada parece servir o cansaço de suportares esses fardos, quando nem sequer foste alguma vez membro do PCP e o único crime que cometeste foi o de seres compagnon de route de escritores convictamente comunistas. Não é por isto que querias ser lembrado.

Deixa-me dizer ao mundo que pelos menos duas boas outras razões tinham para se lembrarem de ti: primeiro, a responsabilidade do prémio da APE ao Luandino Vieira, o acto maior da tua vida de intelectual, conforme confessaste em jeito de balanço; segundo, a tua obra romanesca, que nada tem a ver com o neo-realismo, se fazem favor. (Ah, se a Caminho te tivesse dado as condições necessárias para publicares o malogrado Dicionário do Neo-Realismo Português, obra por cuja conclusão desesperaste e que fica sem destino, então é que não te livravas mais da condenação neo-realista ad infinitum!). Já não quiseste dar uma oportunidade à APE de te fazer a justiça de pelo menos um dos teus romances merecer o prémio anual, por isso tiveste de assistir desolado a derrotas consecutivas, em favor de romances de que ninguém mais se vai lembrar. Fica a certeza de que te divertiste à brava a escrever todo o Pentateuco Salazarista, porque uma das tuas maiores virtudes foi sempre a de teres um sentido de humor inteligentíssimo, porque o humor foi sempre o estado de espírito da tua escrita. Neste país de sisudos, o riso é pecado mortal.

Como era de esperar, ninguém omite a tua altercação com o Vergílio Ferreira. Trinta anos depois ainda falavas do assunto como um espinho que nunca deixou de incomodar. Fizeste-me uma experiência: antes de eu conhecer os textos da polémica, quiseste saber a minha opinião imparcial sobre o Rumor Branco. E que eu decidisse quem tinha razão. Li e disse-te que não me havia surpreendido com as pseudo-inovações literárias e gramaticais do Almeida Faria. Sem sair deste século, os modernistas ingleses, italianos e portugueses tinham ido muito mais longe nesses experimentalismos. Li depois os textos da polémica e nunca o Vergílio Ferreira contestou tal facto, que para mim era o pomo da discórdia. O resto era um assunto pessoal que não me dizia respeito. A minha conclusão “imparcial” era simples: O Almeida Faria não passava de um aprendiz de Joyce. A história que hoje podemos fazer dos últimos trinta anos dá-te razão, pois Almeida Faria não se tornou o grande escritor que Vergílio Ferreira augurara. O JL bem tentou a reconciliação. Na morte de Vergílio Ferreira, não guardaste ressentimentos. Até nesse momento ganhaste a razão.

Vou continuar a ensinar na Universidade os teus romances, que é a melhor homenagem que se pode fazer a um escritor. Magister dixit. Vou continuar a escrever sobre a tua obra, mesmo que me tenhas dito que isso é “perigoso” e que me arrisco a partilhar a tua maldição. Paciência, o pior que me pode acontecer é exactamente o mesmo que acreditavas acontecer com os teus romances: ninguém os lê! Comprá-los é uma coisa, lê-los é que é difícil. Por isso te encheste de orgulho quando aquela livreira anónima da província te reconheceu e disse ter lido e gostado de O Adeus às Virgens. Na verdade, como dizias, bastava que os milhares de escritores que existem em Portugal se lessem uns aos outros para que as tiragens fossem dignas do esforço da escrita. É precisamente este esforço que é ignorado. Fica-me a boa vaidade com que me falavas dos escritores com quem privaste e com quem partilhaste o labor da escrita: da ajuda crítica para uma boa arrumação das folhas do manuscrito de Barranco de Cegos que o Alves Redol ia afixando nas paredes de casa às leituras privilegiadas que o Carlos de Oliveira te pedia no afã de conseguir uma obra reduzida ao essencial.

E serei tua testemunha do trabalho de campo aturadíssimo que fazias para escrever romances dignos do século. Saberás que o nosso Presidente da República anda atarefadíssimo a distribuir medalhas todas as semanas a ilustríssimos cidadãos portugueses, que não tendo feito por Portugal um décimo do teu trabalho e dedicação de mais de trinta anos, são certamente merecedores de mil honrarias. Dizem que não gostavas do teu País. Só quem não te conheceu de perto pode ajuizar assim tão disparatadamente. Não conheci fora de Portugal português mais fiel à sua pátria — esta é que nunca mereceu a tua abnegação pelas coisas genuinamente portuguesas, esta é que nunca há-de saber avaliar o quanto dignificaste o seu nome numa comunidade que aprendeu a respeitar os intelectuais portugueses com o teu exemplo. Pesa-me a tua herança. Confidenciaste-me todos os segredos da tua escrita. Revelaste-me todos os inéditos e livros “secretos” que guardavas ao abrigo do público, essa entidade divina em que há muito deixaras de acreditar. Não tiveste tempo de acabar as tuas memórias, que já andavam a inquietar muita gente. Querias seguir o bom exemplo de Raul Brandão, mas com mais nervo. Pena é que nem sequer tenhas tido tempo de chegar aos nossos dias, para descanso dos émulos. Ficam muitos arrufos na gaveta que o mundo ainda há-de conhecer, pour épater les bourgois. Eu fico aqui à espreita, a vigiar o mundo como me ensinaste, meu Sócrates privado.

OBRA

POESIA

Quarteto para Instrumentos de Dor, separata do livro Poemas para Florbela, Tip. Martins e Irmäo, Porto (1950)

Novo Génesis, Tip. Martins & Irmão, Porto (1950)

A Voz Recuperada, J. R. Gonçalves, Porto (1953)

A Terra do Meu Pai, Plátano, Lisboa (1972)

O Ressentimento de um Ocidental, Moraes, Lisboa (1981)

A Flor Evaporada, D. Quixote, Lisboa (1984)

Trocar de Século/Century Slip - Poema / A Poem, translated by Dedorah Nickson, Instituto Português do Oriente, Macau (1995)

A Ilha do Desterro, Caminho, Lisboa (2ªed., 1996)


ROMANCE

A Nau de Quixibá, Caminho, Lisboa (1977)

Adaptação teatral pela companhia O Bando, na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996, com a participação de artistas são tomenses, numa encenação de Raul Atalaia

Contos, Caminho, Lisboa (1985), com reproduções de João Abel Manta

Tubarões e Peixe Miúdo ou Aventuras de Sacatrapo na Terra dos Fetos, Caminho, Lisboa (1986)

Espingardas e Música Clássica, Caminho, Lisboa (1987)

O Adeus às Virgens, Caminho, Lisboa (1992) 

Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro, Caminho, Lisboa (1994)

A Quarta Invasão Francesa, Caminho, Lisboa (1995)

Vai Alta a Noite, Caminho, Lisboa (1997)

O Meu Anjo Catarina, Caminho, Lisboa (1998)

Amor, só Amor, Tudo Amor, Caminho, Lisboa (1999)


ENSAIO

Romance: O Mundo em Equação, Portugália, Lisboa (1967)

Vida e Obra de José Gomes Ferreira, Bertrand, Amadora, 1975

O Neo-Realismo Literário Português, Moraes, Lisboa (1977)

O Movimento Neo-realista em Portugal na sua Primeira Fase,  Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1977 (2ª ed., 1983); Le mouvement néo-réaliste au Portugal, trad. Isabel Meyrelles, Sagres-Europa, Bruxelles (1991)

Os Romances de Alves Redol: Ensaio de Interpretação, Moraes, Lisboa (1979)

O Código Científico-Cosmogónico-metafísico de Perseguição (1942) de Jorge de Sena, Moraes, 1980

Ensaios Escolhidos I - Estudos sobre as Literaturas de Língua Portuguesa, Caminho, Lisboa (1990)

Ensaios Escolhidos II - Estudos sobre as Literaturas de Língua Portuguesa, Caminho, Lisboa (1990)

A Paleta de Cesário Verde, Caminho, Lisboa, 2003


TRADUÇÃO

A Conquista do Everest, de Eric Shipton, Civilização, Porto (1959)

A Capital do Mundo e Outras Histórias, de Ernest Hemingway, trad. de Virgínia Motta e Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1959]

Um Gato à Chuva, de Ernest Hemingway, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1960]

Viajando na Noruega, de Beth Hogg e Garry Hogg, Civilização, Porto (1960)

Lendas do Mundo Antigo, de Nathaniel Hawthorne, Civilização, Porto (1961)

A Ilha do Tesouro Robert Louis Stevenson, Civilização, Porto (1961)

A Vida Quotidiana na Babilónia e na Assíria, de Georges Coutenau, trad. Leonor de Almeida e de Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1961]

O Índio do Packard, de William Saroyan, Guimaräes Editores, Lisboa (1961)

O Raposo, de D.H.Lawrence, Livros do Brasil, Lisboa, [D.L. 1962]

Viajando na Inglaterra, de Geoffrey Trease, Civilização, Porto (1962)

O Mundo das Formas, de Henri Focillon, trad. de Maria José Lagos Trindade e Alexandre Pinheiro Torres, Edições Sousa & Almeida, Porto [D.L. 1962]

Viajando na Suíça, de Mariann Meier, Civilização, Porto (1963)

História de Jenni; O Ouvido do Conde Chesterfield, de  Voltaire, Editora Arcádia, Lisboa (1964)

A Casa na Praia, de Daphne du Maurier, Inova, Porto (1973)

Contos, de Ernest Hemingway trad. de Alexandre Pinheiro Torres e Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, Lisboa, [1975]

As Torrentes da Primavera, de Ernest Hermingway, trad. de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa, [1975]

A Virgem e o Cigano, de D. H. Lawrence, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1961]

Os Cavalos Também se Abatem, de  Horace Maccoy, Europa-América, Mem Martins (1973)

História da Filosofia, de  Julián Marias, 7ª ed., Sousa & Almeida, Porto (1985)

O Mundo que Nós Perdemos, de Peter Laslett, Cosmos, Lisboa (1976)


ANTOLOGIAS

Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 3 vols., Lello & Irmäo, Porto, 1984.

Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-portuguesa (sécs. XII-XIV), introd., notas, paráfrases e glossário, 2ª ed., 2 vols., Lello & Irmäo, Porto, 1987

Novo Cancioneiro, Caminho, Lisboa, 1989

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