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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Almeida Garrett

 Almeida Garret

Almeida Garrett

Nome: João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett

Nascimento: 4-2-1799, Porto

Morte: 9-12-1854, Lisboa

Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu em 1799 no Porto, no seio de uma família burguesa, que se refugia em 1809 na ilha Terceira, a fim de escapar à segunda invasão francesa. Nos Açores, recebe uma educação clássica e iluminista (Voltaire e Rousseau, que lhe ensinam o valor da Liberdade), orientada pelo tio, Frei Alexandre da Conceição, Bispo de Angra, ele próprio escritor. Em 1817, vai estudar Leis para Coimbra, foco de fermentação das ideias liberais. Em 1820, finalista em Coimbra, recebe com entusiasmo e optimismo a notícia da revolução liberal. Em 1821, representa o Catão e publica em Coimbra O Retrato de Vénus, obras marcadas ainda por um estilo arcádico. Arcádicos são igualmente os poemas que escreve durante este período e que serão insertos, em 1829, na Lírica de João Mínimo. Em 1822, é nomeado funcionário do Ministério do Reino, casa com Luísa Midosi e funda o jornal para senhoras O Toucador. Em 1823, com a reacção miguelista da Vila-Francada, é obrigado a exilar-se em Inglaterra, onde inicia o estudo do Romantismo (inglês), e depois em França, onde se torna correspondente de uma filial da casa Lafitte. Contacta então com a literatura romântica (Byron, Lamartine, Vítor Hugo, Schlegel, Walter Scott, Mme de Staël), redescobre Shakespeare e, influenciado pelas recolhas de cancioneiros populares, começa a preparar o Romanceiro. Em 1825 e 1826, publica em Paris os poemas Camões e Dona Branca, primeiras obras portuguesas de cunho romântico, fruto da metamorfose estética em si operada pelas novas leituras. Em 1826, publica também o Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa, como introdução à antologia de poesia portuguesa Parnaso Lusitano. Em 1826, durante um período de tréguas, regressa a Portugal e mostra-se confiante na Carta Constitucional acordada entre D. Pedro e D. Miguel, mais moderada que o programa vintista. Dedica-se ao jornalismo político nos jornais O Português e O Cronista. Em 1828, depois da retoma do poder absoluto por parte de D. Miguel, exila-se novamente em Inglaterra. Em 1829, publica em Londres a Lírica de João Mínimo e o tratado Da Educação. Em 1830, publica o tratado político Portugal na Balança da Europa, onde analisa a história da crise portuguesa e exorta à unidade e à moderação. Em 1832, parte para a ilha Terceira, incorpora-se no exército liberal, e participa no desembarque em Mindelo. Escreve, durante o cerco do Porto, o romance histórico O Arco de Santana e colabora com Mouzinho da Silveira nas reformas administrativas. Em 1834, é nomeado cônsul-geral em Bruxelas, numa espécie de terceiro exílio motivado pelo cada vez maior desencanto em relação à política portuguesa (a divisão dos liberais, a corrida aos cargos públicos), onde contacta com a língua e a literatura alemãs (Herder, Schiller e Goethe). Também exerceu funções diplomáticas em Londres e em Paris. Em 1836, regressa a Lisboa, separa-se de Luísa Midosi e funda o jornal O Português Constitucional. No mesmo ano, após a Revolução de Setembro, é incumbido pelo governo setembrista de Passos Manuel da organização do Teatro Nacional. Nesse âmbito, desenvolverá uma acção notável, dirigindo a Inspecção Geral dos Teatros e o Conservatório de Arte Dramática, intervindo no projecto do futuro Teatro Nacional de D. Maria II e escrevendo ao longo dos anos seguintes todo um repertório dramático nacional: Um Auto de Gil Vicente (1838), Dona Filipa de Vilhena (1840), O Alfageme de Santarém (1842), Frei Luís de Sousa (1843). É por esta altura que inicia um romance com Adelaide Deville, que morrerá em 1841, deixando-lhe uma filha (episódio que inspirará o Frei Luís de Sousa). Em 1838, torna-se deputado da Assembleia Constituinte e membro da comissão de reforma do Código Administrativo. No ano de 1843 publica o 1.º volume do Romanceiro, uma recolha de poesias de tradição popular. Em 1845, lança o livro de poesias líricas Flores sem Fruto e o 1.º volume do romance histórico O Arco de Sant'Ana. Em 1846, sai em volume o "inclassificável" livro das Viagens na Minha Terra, publicado um ano antes em folhetim na Revista Universal Lisbonense. Com este livro, a crítica considera iniciada a prosa moderna em Portugal. Em 1851, depois de um período de distanciamento face à vida política, regressa com a Regeneração, movimento que prometia conciliação e progresso. Nesse ano, funda o jornal A Regeneração, aceita o título de visconde e reassume o seu papel de deputado, colaborando na proposta de revisão da Carta. Em 1852, torna-se, por pouco tempo, ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 1853, publica o livro de poesias líricas Folhas Caídas, recebido com algum escândalo: o poeta era, na época, uma figura pública respeitável (deputado, ministro, visconde), que se atrevia a cantar o amor desafiando todas as convenções, e muitos souberam ver na obra ecos da paixão do autor pela viscondessa da Luz, Rosa de Montufar. Em 1854, morre em Lisboa, aos cinquenta e cinco anos.

Em 1999 comemorou-se o Bicentenário do nascimento de Almeida Garrett, com a realização de conferências, publicações das suas obras, espectáculos, actividades escolares, exposições, entre outros eventos.

Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Bibliografia: Da imensa bibliografia de Almeida Garrett salientam-se Catão, 1821 (teatro); Camões, 1825 (poema), D. Branca, 1826 (poema), Adozinda, 1828 (poema); Lírica de João Mínimo, 1829 (poesias); Da Educação, 1829 (ensaio); Portugal na Balança da Europa, 1830 (ensaio); Um Auto de Gil Vicente, 1838 (teatro); Dona Filipa de Vilhena, 1840 (teatro); O Alfageme de Santarém, 1842 (teatro); Frei Luís de Sousa, 1843 (teatro); Romanceiro, 3 vols. 1843, 1851 (poesias); Flores sem Fruto, 1845 (poesias); O Arco de Santana, 2 vols., 1845, 1851 (romance); Viagens na Minha Terra, 1845-1846 (novela); Folhas Caídas, 1853 (poesias)

Fonte: In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009. [Consult. 2009-02-06]. Infopédia

 

Outros Links:

 

POEMA

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
           E eu na alma - tenho a calma,
           A calma - do jazigo.
           Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
           E a vida - nem sentida
           A trago eu já, comigo.
           Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
           De um querer bruto e fero
           Que o sangue me devora,
           Não chega ao coração.

(Folhas Caídas – 1853 – excertos)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Almada-Negreiros

 

Allmadanegreiros1917 

Nome: José Sobral de Almada-Negreiros

Nascimento: 7-4-1893, S. Tomé e Príncipe

Morte: 15-6-1970, Lisboa

Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de Abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de Junho de 1970, em Lisboa.

"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua acção pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literariamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa

Órfão desde tenra idade, viajou para Lisboa com sete anos para casa de uma tia materna. Frequentou os estudos primários e liceais em Lisboa, no Colégio Jesuítico de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de Lisboa. Entre 1919 e 1920, seguiu estudos de pintura em Paris, aí trabalhando como bailarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas, redigindo na capital francesa muitos dos textos e grafismos que viriam a ser célebres, como o "auto-retrato". Viveu entre 1927 e 1932 em Espanha, onde realizou várias encomendas para particulares e públicos. Embora já tivesse colaborado com textos e grafismos em algumas publicações, como Portugal Artístico ou Ilustração Portuguesa, e tivesse participado com êxito no 1.º Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses, é a sua colaboração no número 1 de Orpheu, em 1915, onde publica o texto ainda incompletamente revelador Frizos (A Cena do Ódio, destinada a Orpheu 3, só viria a ser publicada em Contemporânea), que lhe dará a base de lançamento para uma postura iconoclasta (o Manifesto Anti-Dantas, apresentado no mesmo ano, é modelar neste ataque generalizado a uma intelectualidade convencional, burguesa e passadista), tornando-se um dos principais representantes da vertente vanguardista do movimento modernista. Em 1917, participa no projecto Portugal Futurista, publicando nesse órgão do "Comité Futurista de Lisboa", que co-fundara, no mesmo ano, com Santa-Rita, o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, texto que já tinha sido objecto de performance pública, e os os textos simultaneístas Mima Fatáxa e Saltimbancos. Desenvolve paralelamente uma intensa actividade artística, tendo colaborado, com grafismos e com criação literária, em várias publicações, como Diário de Lisboa, Athena, Presença, Revista Portuguesa, Cadernos de Poesia, Panorama, Atlântico, Seara Nova e tendo fundado outras, como os "Cadernos de Almada-Negreiros", SW, onde, em 1935, no primeiro número, tenta equacionar, com o máximo de clareza, as relações entre civilização e cultura, entre arte e política, entre indivíduo e colectividade, aí vindo também a publicar um dos seus vários textos dramáticos, SOS, que, com Deseja-se Mulher, deveria integrar o projecto, originalmente escrito em castelhano, Tragédia da Unidade. Uma análise da obra de Almada-Negreiros não pode deixar de considerar a complementaridade que nela assumem as várias formas de expressão artística, nem de verificar que, independentemente do suporte escolhido (argumento e coreografia de bailados, exposições, happening, produções publicitárias, cinema, jornais manuscritos, telas, frescos, mosaicos, vitrais, painéis de azulejos, palestras radiofónicas, cenários e figurinos, cartões de tapeçaria, etc.), toda a realização artística de Almada se distingue por certos traços comuns, não necessariamente antitéticos, como a graciosidade e a irreverência, a ingenuidade e a inteligência, o populismo e o esteticismo, a abstracção e o concreto. Na tentativa de encontrar a arte poética subjacente à sua actividade exclusivamente literária, Celina Silva considera que a "performance constitui o universal maior de toda a produção" de Almada-Negreiros: "evidenciando-se no literário através da adopção de uma concepção do verbal que é encarada enquanto acção", essa performance verbal que "tanto é típica da postura vanguardista quanto se revela reinstauração do verbal nos seus primórdios [...] implica um exercício da palavra-acção radicada numa postura geradora de uma ficção do eu", ao mesmo tempo que "A espontaneidade e o cunho comunicativo radicam numa ambição totalizante, eivada de optimismo e euforia, que, pela abrangência de que se reveste, aponta para um projecto de alargada recepção, embora projectado por uma elite" (cf. SILVA, Celina - A Busca de Uma Poética da Ingenuidade ou a (Re)Invenção da Utopia (Reflexão Sistematizante acerca da Produção Literária de José de Almada-Negreiros, Porto, Faculdade de Letras, 1992, pp. XIII, XIV). A "poética da ingenuidade" explanada por Celina Silva, anulando qualquer descontinuidade entre a forma linguística do poema, do drama, do texto de intervenção, e a expressão do ensaio, da teoria poética ou filosófica, encontraria numa "sofistificação da simplicidade" (cf. Sena, Jorge de in Obras Completas de Almada Negreiros, vol. I, Lisboa, INCM, 1985, p. 17) o equilíbrio entre poesia e conhecimento, num autor para quem "A Poesia "conhece" e não "sabe" (Prefácio ao Livro de Qualquer Poeta).



Almada-Negreiros. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2009. [Consult. 2009-02-05].
Infopédia

Obras

  • 1915 - A Cena do Ódio (poesia)
- A Engomadeira (novela)
- O Sonho da Rosa (bailado, realização)
- Manifesto Anti-Dantas e Por Extenso
  • 1916
- Exposição Amadeo de Souza Cardoso - Liga Naval de Lisboa"
  • 1917
- Ultimatum às Gerações Futuristas Portuguesas do Século XX (conferência, publicada na Portugal Futurista)
- K4, O Quadrado Azul (novela)
  • 1918
- O Jardim da Pierrette (bailado)
  • 1919
- Histoire du Portugal par Coeur
  • 1921
- A Invenção do Corpo (conferência)
- A Invenção do Dia Claro
  • 1924
- Pierrot e Arlequim (teatro)
  • 1925
- Nome de Guerra (romance), só editado em 1938
  • 1926
- A Questão dos Painéis (ensaio)

Fonte: pt.wikipédia

POEMA

A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.


Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

Mais Links:

  • Obras de José de Almada Negreiros no Projecto Gutenberg
  • A Cena do Ódio (poema)
  • Manifesto Anti-Dantas e Por Extenso
  • Canção da Saudade (poema)
  • Entrevista no Programa Zip-Zip em 1969
  • Retrato de Fernando Pessoa
  • Auto-retrato com o grupo da Brasileira
  • Auto-retrato
  • Almada Negreiros - Vidas Lusófonas
  • Almada Negreiros - set de imagens no Flickr
  • Almada Negreiros – Citador
  • Almada Negreiros – pt.wikipedia

     

     

  • sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

    Alexandre Vargas

     AlexandreVargas

    Alexandre Vargas ( Lisboa, 31 de Dezembro, de 1952) é um escritor português, licenciado em filologia românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Está representado em antologias e tem colaboração dispersa por vários jornais e revistas.

    Obra

    • Morta a sua Fala, Iniciativas Editoriais, 1977;
    • Cyborg, Livros Horizonte, 1979;
    • Vento de Pedra, Moraes Editores, 1981;
    • Organum, Fenda Edições, 1984;
    • Múltiplos de Três, Autores, 1997;
    • Lua Cisterna, & etc, 1984.

    Traduções
    • Patti Smith (“Witt”, Assírio & Alvim, 1983),
    • Peter Hammill (“Camaleão na Sombra da Noite”, Assírio & Alvim, 1990), *Lewis Carroll, Yasmina Reza, Pier Paolo Pasolini, Amélie Nothomb e Xavier Durringer.

    Fonte: Alexandre Vargas – pt.wikipédia

    Outros Links:

    POEMA:

    ERA UM DIA DE OUTONO NEVOEIRO...

    Era um dia de outono nevoeiro,

    eu caminhava ao longo de uma costa

    por mar batida, num carreiro,

    depois de fazer parar a mala-posta.

    Um pouco afastadas da falésia

    algumas árvores meditavam ao ar livre,

    aproximei-me: logo ali, sob uma delas,

    encontrei a folha que faltava no meu livro.

    Tratava-se de um volume de epístolas

    arrumadas entre cartas de jogar,

    cerrado ao peito como uma pistola

    ás de copas recolhi para disparar.

    A noite ia passar naquelas bandas,

    já lobrigara estalagem o cocheiro

    marcara quarto simples na “Old England”

    de cuja ceia rescendia sóbrio cheiro.

    Depois da janta adormeci sobre a lareira

    de “whiskey” e charutos carta ao fogo,

    logo para a mesa estalajadeira,

    refeito, me conduziu a novo jogo.

    O cocheiro dormia agora a sono solto

    bebidas “pints” outro ás ganhava belo

    sonhei que partia para o monte

    a câmara rubra levou ela contarelo:

    “Arcelo, Arcelo,

    deita o teu cabelo

    cá abaixo de repente,

    quero subir imediatamente!”

    Era uma narrativa popular

    que subia, à torre subia e subia

    o tempo a desenrolar-

    -me a estalajadeira e o fâmulo na via.

    (1999) – Tirado do Site Oficial

    terça-feira, 27 de janeiro de 2009

    Alexandre O'Neill

     AlexandreONeill3

    Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill de Bulhões (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 — 21 de Agosto de 1986), ou simplemente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista em Portugal fundador do Movimento Surrealista de Lisboa. Foi várias vezes preso pela polícia política, a PIDE.

    Biografia

    As suas primeiras influências surrealistas surgem no ano de 1947, quando contacta com Mário Cesariny. Em 1948, fundam o Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com José Augusto França, António Pedro e Vespeira. Este grupo depressa se divide em dois e dá origem ao Grupo Surrealista Dissidente, com personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom. Também este grupo se dissolve poucos anos depois, mas as influências surrealistas permanecem visíveis nas obras de Alexandre O'Neill.

    Alexandre O'Neill, não conseguindo viver apenas da sua arte, alargou a sua acção à publicidade.Tem a autoria do lema publicitário Há mar e mar, há ir e voltar.

    Publicou dois livros em prosa narrativa, As Andorinhas não Têm Restaurante (1970) e Uma Coisa em Forma de Assim (1980, volume de crónicas), e as Antologias Poéticas de Gomes Leal e de Teixeira de Pascoaes (em colaboração com F. Cunha Leão), de Carl Sandburg e João Cabral de Melo Neto. Gravou o disco «Alexandre O'Neill Diz Poemas de Sua Autoria». Em 1966, foi traduzido e publicado na Itália, pela Editora Einaudi, um volume da sua poesia, Portogallo Mio Rimorso. Recebeu, em 1982, o Prémio da Associação de Críticos Literários.

    Obras

    • Tempo de Fantasmas (1951)
    • No Reino da Dinamarca (1958)
    • Abandono Vigiado (1960)
    • Poemas com Endereço (1962)
    • Feira Cabisbaixa (1965)
    • De Ombro na Ombreira (1969)
    • As Andorinhas Não Têm Restaurante (1970), em prosa narrativa
    • Entre a Cortina e a Vidraça (1972)
    • A Saca de Orelhas (1979)
    • Uma Coisa em Forma de Assim (1980), em prosa narrativa
    • As Horas Já de Números Vestidas (1981)
    • Dezanove Poemas (1983)
    • O Princípio da Utopia (1986)

    Outros Links

    Fonte: pt.wikipedia

    POEMA

    Mal nos conhecemos
    Inauguramos a palavra amigo!
    Amigo é um sorriso
    De boca em boca,
    Um olhar bem limpo
    Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
    Um coração pronto a pulsar
    Na nossa mão!
    Amigo (recordam-se, vocês aí,
    Escrupulosos detritos?)
    Amigo é o contrário de inimigo!
    Amigo é o erro corrigido,
    Não o erro perseguido, explorado.
    É a verdade partilhada, praticada.
    Amigo é a solidão derrotada!
    Amigo é uma grande tarefa,
    Um trabalho sem fim,
    Um espaço útil, um tempo fértil,
    Amigo vai ser, é já uma grande festa!

    segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

    Egito Gonçalves

     

    Egito Goncalves

    Nome: José Egito de Oliveira Gonçalves

    Nascimento: 8-4-1922, Matosinhos

    Morte: 29-1-2001, Porto

    Exerceu várias actividades profissionais, desde funções comerciais, a tradutor e jornalista. Figura reconhecida nos meios poéticos da década de 50, Egito Gonçalves esteve ligado a publicações onde se revelaram e afirmaram alguns dos maiores poetas da época contemporânea: fundou e dirigiu, no Porto, A Serpente ; participou na direcção do último número da revista Árvore ; foi co-director e um dos principais responsáveis de Notícias do Bloqueio ; dinamizador da colecção "Germinal"; um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto; correspondente em Portugal do "Centre International d'Études Poétiques". Conhecida pelo seu cunho combativo e intencionalidade social, a poesia de Egito Gonçalves encontra muitas vezes no diálogo e apelo a um interlocutor não nomeado a situação comunicativa privilegiada para aludir de forma irónica ou diferida a contextos históricos, encontrando nessa mediação o distanciamento preciso para que a sua voz não ceda à expressão sentimental de um lirismo motivado por situações trágicas. Esse discurso dirigido a um tu, mensageiro do bloqueio e da resistência ("Vai pois e noticia com um archote / aos que encontrares de fora das muralhas / o mundo em que nos vemos, poesia / massacrada e medos à ilharga" ("Notícias do Bloqueio" in A Viagem com o teu Rosto ), ou companheira cujos "ombros nus são a evasão possível" ("Localização", in A Evasão Possível ), evolui também, sem rejeitar uma imagética de teor surrealista, para o discurso de um nós, que conhece uma situação colectiva de mordaça e paz absurda ("Morremos pouco a pouco neste vácuo / que a solidão nos serve como leito", in Os Arquivos do Silêncio ), mas que não recua, esperando o momento em que lhe será restituída a dignidade: "Este cemitério é vasto e sem muros. / Aí nos situamos; e entre nós / há esta só diferença: nós podemos / fazer ainda a vida acontecer." ("Colóquio com um Fuzilado", in Os Arquivos do Silêncio ).

    Bibliografia: Poema para os Companheiros da Ilha, Porto, 1950; Um Homem na Neblina, Porto, 1950; A Evasão Possível, Porto, 1952; O Vagabundo Decepado, Porto, 1957; A Viagem com o Teu Rosto, Lisboa, 1958; Memória de Setembro, Porto, 1959; Diário Obsessivo, 1962; Os Arquivos do Silêncio, 1963; O Fósforo na Palha, 1970; O Amor Desagua em Delta (inclui A Evasão Possível, 1952; O Vagabundo Decepado, 1957; A Viagem com o Teu Rosto, 1958; Memória de Setembro, 1959), Porto, 1971; Luz Vegetal, Porto, 1975; Poemas Políticos (1952-1979), Lisboa, 1980; Os Pássaros Mudam no Outono, Porto, 1981; Falo da Vertigem, Porto, 1983; Dedikatória, Porto, 1989

    Fonte: Infopédia

    POEMA

    NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


    Aproveito a tua neutralidade,
    o teu rosto oval, a tua beleza clara,
    para enviar notícias do bloqueio
    aos que no continente esperam ansiosos.

    Tu lhes dirás do coração o que sofremos
    nos dias que embranquecem os cabelos …
    Tu lhes dirás a comoção e as palavras
    que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

    Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
    sustentando a defesa à nossa volta
    - único acolchoado para a noite
    florescida de fome e de tristezas.

    Tua neutralidade passará
    por sobre a barreira alfandegária
    e a tua mala levará fotografias,
    um mapa, duas cartas, uma lágrima …

    Dirás como trabalhamos em silêncio,
    como comemos silêncio, bebemos
    silêncio, nadamos e morremos
    feridos de silêncio duro e violento.

    Vai pois e noticia com um archote
    aos que encontrares de fora das muralhas
    o mundo em que nos vemos, poesia
    massacrada e medos à ilharga.

    Vai pois e conta nos jornais diários
    ou escreve com ácido nas paredes
    o que viste, o que sabes, o que eu disse
    entre dois bombardeamentos já esperados.

    Mas diz-lhes que se mantém indevassável
    o segredo das torres que nos erguem,
    e suspensa delas uma flor em lume
    grita o seu nome incandescente e puro.

    Diz-lhes que se resiste na cidade
    desfigurada por feridas de granadas
    e, enquanto a água e os víveres escasseiam,
    aumenta a raiva
                             e a esperança reproduz-se.

    Mais Poemas em: Jornal Poesia

    domingo, 25 de janeiro de 2009

    Fausto Guedes Teixeira

    fausto_guedes_teixeira

    O poeta Fausto Guedes Teixeira nasceu na freguesia de Almacave, em Lamego, em 11 de Outubro de 1871, filho de José Augusto Guedes Teixeira e de sua esposa D. Leopoldina de Queirós Guedes, que haviam casado em 1868. O pai, falecido prematuramente, foi político influente (presidente da Câmara de Lamego, governador civil de Viseu e depois do Porto, deputado às cortes) e também empresário. O casal teve três filhos: Augusto, Fausto e Leopoldina Ema. Após o ensino primário, Fausto Guedes Teixeira iniciou aos 10 anos os seus estudos no Colégio de Campolide. Todavia não suportava muito bem o afastamento da mãe, e três anos depois vemo-lo de novo em Lamego a estudar no Colégio Roseira. O seu desejo era ser oficial da Marinha, mas o pai persuadiu-o a tirar Direito, como ele próprio, e assim em 1890-91 é aluno do 1.º ano da Faculdade de Direito, em Coimbra. Sem vocação para as leis, não obteve aproveitamento em diversos anos do curso, mas acabou por se bacharelar em 1898. O seu gosto era outro: a boémia, a contemplação das doces paisagens de Coimbra, a actividade literária. Abusa do absinto que o viria a pôr, mais tarde, em Lisboa, à beira do delirium tremens. Interrompe ainda o curso em 1895 e parte para o Brasil, munido de uma carta de apresentação de Eça de Queirós, decidido a fazer carreira no jornalismo. Mas a doença (febre amarela) e a inadaptação fizeram com que a estadia fosse curta (menos de um mês) e regressou aos estudos.Em 1899, já formado, encontramo-lo em Lisboa à procura de emprego. De compleição débil e enfermiça – Trindade Coelho referiu-se-lhe usando a expressão: «um passarinho» – continua a fazer uma vida de boémia e a frequentar lugares onde se reuniam os jovens literatos e artistas. É despachado ajudante de conservador em Loulé, cargo que exerce efemeramente, pois em 29 de Outubro, treze dias depois de casar com D. Margarida Braga, irmã do seu grande amigo e condiscípulo Alexandre Braga (Filho), parte com a esposa para Moçambique, onde o espera o cargo de Secretário de Governo do Distrito de Lourenço Marques. Como no Brasil, é uma estadia curta, devido à doença e inadaptação ao clima. Em 1900, está de novo em Lisboa, onde experimenta dificuldades financeiras. Consegue um modesto emprego no Mercado Geral de Produtos Agrícolas, e dirá a propósito a um amigo: «Vê no que veio a dar um poeta romântico: fiscal de nabos e pepinos na Praça da Figueira!» E, numa carta a Afonso Lopes Vieira:  Eu mal tenho uma cadeira em que V. se pudesse sentar, tão difícil e dura é a minha situação na vida.» Porém, anos depois, as suas condições de vida melhoraram substancialmente. Em 1906, é feito Secretário do Museu das Janelas Verdes e em 1913, Administrador da Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela, posição esta que acumula com a anterior e lhe traz desafogo económico. No ano de 1917, um pouco contrariado, integra uma Embaixada Intelectual ao Brasil, chefiada por Alexandre Braga, então ministro da Justiça, e de que faziam parte também o poeta Augusto Gil e o dramaturgo Marcelino Mesquita, entre outras individualidades. Aí deixou uma excelente impressão. Estavam todos ansiosos por ouvir a musa inspirada de Fausto Guedes Teixeira, tanto mais que nós já aqui tínhamos anunciado, em tempo, que não havia ninguém que dissesse os seus versos com mais fogo, com mais alma, como se ali mesmo, dominado pela sua alta inspiração, os estivesse a improvisar.»Em 1918, recebe um rude golpe: o falecimento da mãe, que fora sempre uma figura tutelar para o poeta.Por herança de seu tio materno, o 2.º Visconde de Valmor, Fausto torna-se um rico proprietário em Lamego, onde a partir de 1920 vive os últimos vinte anos de vida, isolado do mundo e doente, física e espiritualmente, na herdada Casa do Parque. Vai entretanto procurando uma aproximação a Deus, que lhe traz alguma serenidade de espírito. Vive em recolhimento quase ascético. Recusa distinções que lhe queriam conferir e o convite para sócio da Academia das Ciências. Os amigos homenageiam-no com um número especial do jornal Beira-Douro de 11 de Outubro de 1938.Faleceu a 13 de Julho de 1940. Teve um funeral imponente e repousa no jazigo da família, no Cemitério de Santa Cruz, em Lamego.Em 1990, por altura do cinquentenário da morte de Fausto Guedes Teixeira, os jornais Voz de Lamego e Lamego Hoje inserem um encarte que lhe é inteiramente dedicado. Em 2005, assinalando o 134.º aniversário do nascimento do poeta, a Liga dos Amigos do Museu de Lamego organizou uma exposição bibliográfica e documental. Existe um busto do escritor da autoria de Costa Mota Sobrinho, no Jardim da República, fronteiro aos Paços do Concelho de Lamego. O nome do poeta figura na toponímia da sua cidade natal, de Lisboa e de São Paulo.Fausto Guedes Teixeira foi um poeta singular, difícil de comparar com qualquer outro. A sua singularidade consiste sobretudo no obstinado afastamento do poeta em relação a correntes literárias, ao arrepio das novas escolas que sucessivamente dominaram o panorama poético – o parnasianismo, o naturalismo, o simbolismo, o modernismo –, mantendo-se atido a uma espécie de neo-romantismo serôdio e até de certo modo reactivo, à Alfred de Musset, especialmente na idade madura, já que a sua poesia da juventude revela por vezes uma certa colagem e influências de Guerra Junqueiro, António Nobre, Cesário Verde e outros. Foi chamado, apropriadamente, «poeta do amor e da paixão», expressão usada pela primeira vez, cremos, no título de um artigo sobre ele, da autoria de João Cid, publicado no jornal Beira-Douro em 11 de Outubro de 1938. Esse epíteto está escrito igualmente no seu túmulo e caracteriza de forma certeira a obra de um homem : o predomínio do sentimento (fonte da verdade) obre a razão, o amor, a mulher, o erotismo, mas também a solidão, a noite, a melancolia. Disse Augusto de Castro: «Há homens que pensam em verso. Fausto pensava, sentia e respirava – em verso.». E Amado Nervo, rítico literário espanhol, afirma: Ese admirable poeta íntimo, el más subjetivo de todos, que se chama Fausto Guedes Teixeira, o mais amado das mulheres e de todos os sentimientos. Sua Mocidade perdida e um belo livro. Este poeta não tem filiação com nenhum dos da sua época; e o mais original e sua poesía psicológica e quiça única na Europa.» Acompanhemos um pouco mais de perto o seu percurso literário. Os primeiros tentames poéticos aparecem em 1889 (tinha ele 18 anos) no quinzenário juvenil Miniaturas, de Lamego. Não foram primícias especialmente promissoras. O Ultimato Inglês, em 1890, empurrou-o para os ideais republicanos, apesar de ter nascido no seio de uma família aristocrática (seu pai era visconde de Guedes Teixeira e sua mãe tinha laços familiares com os viscondes de Valmor e Almedina). No mesmo ano é co-fundador em Lamego de um jornal de cariz revolucionário, A Revolução, de que saiu apenas um número, certamente devido à sua virulência. Em Novembro de 1894, já em Coimbra, funda com Alexandre Braga a revista Insultos ; Crítica das Coisas Portuguesas, de que saíram 2 números, extremamente violentos, suscitando numerosas reacções, folhetos e manifestos. Embora de espírito introvertido e melancólico, dotado de um temperamento emotivo, sentimentalmente volúvel, fisicamente débil, Fausto Guedes Teixeira frequentava a boémia coimbrã, e mais tarde a lisboeta, que animava com leitura de poemas e onde privava com escritores e artistas; e bebia absinto. É geralmente tido como «o maior» pelos seus companheiros dessas noites de boémia.O seu primeiro livro saiu em 1892 com o título Náufragos. Glosava um trágico naufrágio ocorrido na Póvoa de Varzim. É constituído por um único poema, escrito em alexandrinos, onde é possível perceber a influência de Junqueiro e Victor Hugo. Seguiram-se Livro ;Amor (1894), Mocidade perdida (1886; 2.ª ed., 1926), Boa viagem (1898), Esperança nossa (1899), Carta a um poeta (1899), Saudades do coração (1902), Alma triste (1903), O meu livro (1908), Maria (1918), Sonetos de amor (1922), O meu livro (dois volumes, 1941 e 1942, respectivamente, edição definitiva e póstuma das obras completas).

    Fonte: Grémio Literário Vila-Realense

    Mais Informação em: pt.wikipedia

             POEMA

    Amar ou odiar
    Ou tudo ou nada
    O meio termo é que não pode ser
    A alma tem de estar sobressaltada
    Para o nosso barro sentir; viver
    Não é uma Cruz que não se queira pesada
    Metade de um prazer, não é um prazer!
    E quem quiser a vida sossegada
    Fuja da vida e deixe-se morrer!
    Vive-se tanto mais quanto se sente
    Todo o valor está no que sofremos
    Amemos muito como odiamos já!
    A verdade está sempre nos extremos
    Pois é no sentimento que ela está

     

    sábado, 24 de janeiro de 2009

    Alexandre Herculano

     Alexandre Herculano

    Alexandre Herculano de Carvalho Araújo nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810, no seio de uma família da classe média. O pai, Teodoro Cândido de Araújo, era recebedor da Junta dos Juros. A mãe chamava-se Maria do Carmo de S. Boaventura.

    Entre 1820 e 1825 frequentou o colégio dos Oratorianos, mas não chegou a entrar na Universidade, porque em 1827 o pai cegou e teve que abandonar o lugar que ocupava. Pela mesma altura, o avô materno, mestre de obras a trabalhar no palácio da Ajuda, deixou de receber as importâncias de que era credor e não lhe pôde dispensar o apoio necessário.

    Fechada essa porta, matriculou-se na Aula de Comércio, em 1830, e frequentou um Curso de Diplomática (estudos de paleografia). Particularmente, estudou também francês, inglês e alemão. Embora o seu conhecimento destas duas últimas línguas não fosse profundo, serviu-lhe pelo menos para avivar a sua receptividade à literatura coeva desses países, o que não era muito frequente em Portugal. Foi nesta altura que começou a familiarizar-se com a literatura romântica da Europa, por influência da Marquesa de Alorna, cujos serões literários frequentou.

    Herculano perfilhou sempre uma ideologia conservadora, mas não parece haver razões para seguir a opinião expressa por Teófilo Braga, que afirma ter sido na juventude um miguelista convicto. A verdade é que, em Agosto de 1831, aparece-nos comprometido com uma malograda revolta militar de cariz liberal que o obrigou a procurar refúgio num navio francês, surto no Tejo. Daí saiu para o exílio em Inglaterra e França: primeiro Plymouth, depois Jersey, a seguir Saint Malo e finalmente Rennes. No fundo um percurso semelhante ao de Garrett e outros activistas liberais. Foi exactamente em Rennes que Herculano teve oportunidade de frequentar a biblioteca pública da cidade. Pôde então familiarizar-se melhor com as obras de Thierry, Vítor Hugo e Lamennais.

    Tal como Almeida Garrett e outros jovens exilados alistou-se no exército liberal que, no início de 1832, se dirigiu aos Açores e depois ao Porto. Participou no cerco da cidade e destacou-se em várias missões de reconhecimento na região minhota.

    Nesta cidade, foi nomeado em 22 de Fevereiro de 1833 para coadjuvar o director da Biblioteca Pública, organizada a partir do acervo da livraria do bispo. Exerceu o cargo até Setembro de 1836, quando pediu a exoneração, por discordar do juramento de fidelidade à Constituição de 1822, que lhe era exigido. Na carta de demissão declara-se fiel à Carta Constitucional. Coerente com as suas convicções políticas, opõe-se ao Setembrismo, que daqui em diante irá combater. Voltou a Lisboa para, através do jornalismo, combater os adversários políticos. É então que publica A Voz do Profeta (1836).

    Torna-se redactor principal de O Panorama , editado pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, que era então o principal instrumento de divulgação da estética romântica, em Portugal. Foi aí que publicou vários dos seus estudos de natureza histórica e muitas das suas obras literárias, mais tarde editadas em livro: A Abóbada , Mestre Gil , O Pároco de Aldeia , O Bobo e O Monge de Cister .

    Ainda nesse ano de 1837 assumiu a responsabilidade da redacção do Diário do Governo , que nesse tempo era apenas um jornal de suporte ao partido no poder. No entanto, pouco tempo depois abandonou o lugar. No ano seguinte publicou A Harpa do Crente .

    Em 1839 foi nomeado, por iniciativa do rei D. Fernando, para dirigir a Real Biblioteca da Ajuda e das Necessidades, tendo conservado esse cargo quase até ao fim da vida.

    Em 1840 chegou a passar pelo Parlamento, eleito pelo círculo do Porto, como deputado do Partido Cartista (conservador), mas o seu temperamento adequava-se mal à actividade política. As manobras partidárias enojavam-no e sentia dificuldade em falar em público.

    A pouco e pouco foi-se afastando da actividade política e dedicando o seu tempo à literatura. Os anos seguintes são de grande produtividade literária. São desta época os seus romances de ambiente histórico. É também na década de 40 que inicia a publicação da sua História de Portugal , seguramente a primeira escrita com preocupação de rigor científico. Aliás, o primeiro volume suscitou de imediato violenta reacção por parte de alguns sectores do clero, por excluir, naturalmente, qualquer intervenção sobrenatural na batalha de Ourique. A polémica sobre esta questão ficou famosa. Note-se que Herculano era católico e politicamente conservador, mas opunha-se à interferência da igreja na vida política nacional. Esse confronto com sectores clericais está também na origem dos seus estudos sobre a Inquisição em Portugal.

    Em 1851, voltou por algum tempo à política activa, com o triunfo da Regeneração, chegando a colaborar com o governo, embora por pouco tempo. Mais prolongada foi a sua intervenção cívica através da imprensa. Em 1851 fundou o jornal O País e dois anos depois O Português .

    Sócio correspondente da Academia Real das Ciências desde 1844, em 1852 foi admitido como sócio efectivo e eleito vice-presidente em 1855. Em 1853, por encargo da Academia, percorreu o país, inventariando os documentos existentes nos arquivos episcopais e nos mosteiros, preparando aquilo que viria a constituir os Portugaliae Monumenta Historica . Pôde então verificar o estado de abandono a que estava votado a maior parte do acervo documental espalhado pelo país.

    Em Março de 1856 Herculano renunciou ao seu lugar na Academia e decidiu abandonar os estudos de natureza histórica. Na origem dessa decisão parece estar o facto de ter sido nomeado guarda-mor da Torre do Tombo Joaquim José da Costa Macedo, com quem ele teria tido desinteligências sérias. Essa pausa foi interrompida no ano seguinte, por entretanto se ter aposentado o referido indivíduo. Pôde assim continuar o trabalho de organização e publicação dos Portugaliae Monumenta Historica .

    Herculano participou nos trabalhos de redacção do Código Civil, tendo nessa altura defendido o casamento civil a par do religioso. A proposta era inovadora e suscitou forte reacção. Dessa polémica surgiram os Estudos sobre o Casamento Civil .

    Juntamente com Almeida Garrett , é considerado o introdutor do romantismo em Portugal. Os seus primeiros contactos com a literatura ocorreram em ambiente pré-romântico, nos salões da Marquesa de Alorna, onde entrou por mão de António Feliciano de Castilho . Embora Garrett , onze anos mais velho, se tenha adiantado com a publicação no exílio de Camões e D. Branca , consideradas as primeiras obras inequivocamente românticas, podemos considerar Herculano como o teorizador da nova corrente literária, ao nível interno, pelos artigos que publicou no Repositório Literário do Porto. Por outro lado foi ele que introduziu no nosso país o romance histórico, tão característico do romantismo. A inspiração directa veio-lhe naturalmente de Walter Scott e Victor Hugo.

    Os seus méritos de cidadão, escritor e estudioso eram reconhecidos quase unanimemente e foram muitas as honrarias que lhe foram oferecidas. Aceitou algumas de natureza científica, mas as distinções honoríficas recusou-as sempre. Recusou mesmo a sua nobilitação, ao contrário de Garrett e Camilo , que, como sabemos, morreram viscondes.

    Em 1866 casou e, pouco depois, retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos, próximo de Santarém. Aí permaneceu até ao fim da vida, ocupado com os seus escritos literários e as lides agrícolas. Foi aí que morreu, a 13 de Setembro de 1877.

    Alexandre Herculano - obras

    Bibliografia :

    A Voz do Profeta (poesia) - 1836

    A Harpa do Crente (poesia) - 1838

    O Fronteiro de África (teatro) - 1838

    Os Infantes em Ceuta (teatro) - 1842

    O Bobo (romance histórico) - 1843

    Apontamentos para a História dos Bens da Coroa e Forais - 1843/44

    Eurico, o Presbítero (romance histórico) - 1844

    História de Portugal (4 vols) -1846/1853

    O Monge de Cister (romance histórico) - 1848

    Poesias - 1850

    Lendas e narrativas (novelas) - 1851

    História da Origens e Estabelecimento da Inquisição em Portugal - 1854/1859

    Estudos sobre o Casamento Civil - 1866

    Portugaliae Monumenta Historica - 1856/1873

    Opúsculos (10 vols) - 1873...

    Obras consultadas:  Breve História da Literatura Portuguesa , Texto Editora, Lisboa, 1999

    Mais Informação em:

    POEMA:

    Ai, que és tu, existência?! Um pesadelo,
    Um sonho mau, de que se acorda em trevas,
    Na vala dos cadáveres, em meio
    Da única herança que pertence ao homem,
    Um sudário e o perpétuo esquecimento.
    (...)
    E da pátria a saudade, em sonho triste,
    Imóvel, do viver me tece a noite.


    Tristezas do Desterro, excerto

    sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

    Alberto de Serpa

            AlbertodeSerpa Alberto de Serpa nasceu no Porto, a 12 de Dezembro de 1906. Foi um poeta português. Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, onde não concluíu qualquer curso, após regressar ao Porto foi empregado de comércio e de escritório e tornou-se posteriormente um professional de seguros.  Em  1936 esteve preso por motivos políticose mais tarde integrou-se no movimento Presença. Fundou, com Vitorino Nemésio, a Revista de Portugal. Colaborou em várias revistas e jornais brasileiros e portugueses. Publicou com José Régio, as  antologias, Poesia de Amor e Na Mão de Deus. Faleceu a 8 de Outubro de 1992.

                            • Obras publicadas
                            • Ensaios
                            • 1948 - Vida, Poesias e Males de António Nobre
                            • 1952 - Poetas... Poetas...
                            • Novela
                            • 1923 - Saudades do Mar
                            •  Poesia
                            • 1924 – Quadros
                            • 1924 – Evoé
                            • 1934 – Varanda
                            • 1934 – Descrição
                            • 1935 - Vinte Poemas da Noite
                            • 1940 - A Vida É o Dia de Hoje
                            • 1940 - Lisboa é Longe
                            • 1940 - Drama, Poemas de Paz e da Guerra
                            • 1943 – Fonte
                            • 1944 – Poesia
                            • 1945 – Nocturnos
                            • 1948 – Rua
                            • 1952 – Pregão
                            • 1952 - Vê Se Vês Terras de Espanha
                            • 1958 - Os Versos Secretos

                       

                      POEMA:

                      A UM JOVEM CAMARADA

                      Meu Camarada moço,
                      - Lidos os teus poemas,
                      Apenas posso
                      Dizer-te que não temas
                      Dar-lhes o fogo, a morte, o esquecimento.
                      Se queres a Poesia, vai para ela
                      Puro, desnudo, de ímpeto violento,
                      Como para a mulher
                      Em que parou teu sonho, - se és o seu.
                      Vai, como ela te quer.
                      Mas se outra chama inflama o teu amor,
                      Se outro sonho tão belo te rendeu,
                      Tem coragem nobre de depor
                      Os versos que não são teu instrumento.
                      Toma outras armas mais condizentes.
                      Não, a Poesia não a violentes!
                      Deixa os versos ao vento…

                      Mais poemas em:

                      segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

                      Alberto Osório de Castro

                       

                      Alberto Osório de Castro (Coimbra, 1 de Março de 1868 - Lisboa, 1 de Janeiro de 1946) foi um juiz e poeta português.

                      Biografia

                      Aos 21 anos formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi juiz nas antigas províncias ultramarinas portuguesas na Índia, em Angola e em Timor. Após regressar ao continente português, exerceu as funções de juiz do Supremo Tribunal de Justiça e foi presidente do Conselho Superior de Administração Pública, sendo ainda Ministro da Justiça no governo de Sidónio Pais.

                      Nas letras, esteve ligado ao nascimento da revista Boémia Nova e estreou-se na poesia com a obra Exiladas em 1895. É descrito como estando situado entre o decadentismo e o simbolismo, evoluindo posteriormente para um formalismo de sabor parnasiano.

                      Além da poesia, dedicou-se aos estudos da antropologia, da etnologia e da botânica.

                      Obras publicadas

                      Poesia
                      • 1895 - Exiladas
                      • 1906 - A Cinza dos Mortos
                      • 1908 - Flores de Coral
                      • 1923 - O Sinal da Sombra

                      LIVRO

                      Monografia
                      • 1943 - A Ilha Verde e Vermelha de Timor

                       Fonte: Pt.wikipedia

                      POEMAS:

                      FLORES DE CORAL


                      Dispersos pelos mares,
                      Alguns dias de luz me alvorejaram.
                      Ondas d’oiro no nácar dos luares
                      O meu sonho embalaram,
                      E em flores de coral, sob os palmares,
                      Rolaram-no, e passaram.


                      À CASUARINAS DO CEMITÉRIO DE DILI


                      Sonho escuro dos mortos embalai,
                      Prece das casuarinas!
                      Vozes vagas dos mortos, ciciai
                      Nas folhagens franzinas!
                      Já no céu, resplandece esmorecendo
                      A púrpura do dia.
                      Passa a aragem do pântano gemendo
                      Na romagem sombria.
                      Que murmuram as bocas das raízes
                      Aos mortos a sonhar?
                      Que lhes dizes, ramagem? Que lhes dizes,
                      A reza e a embalar?

                      (Lahane, Timor, Abril de 1908).

                      sábado, 10 de janeiro de 2009

                      Alberto de Lacerda

                       ALBERTO LACERDA

                      Alberto Correia de Lacerda (Ilha de Moçambique, 20 de Setembro de 1928 — Londres, 26 de Agosto de 2007) foi um poeta português.

                      Biografia

                      Nascido no Norte de Moçambique, Alberto de Lacerda veio para Lisboa em 1946. Em 1951 fixou-se em Londres trabalhando como locutor e jornalista da BBC, efectuado um notável trabalho de divulgação de poetas como Camões, Pessoa e Sena. Nos anos seguintes viajou pela Europa e esteve no Brasil em 1959 e 1960. A partir de 1967 começa a leccionar na Universidade de Austin, no Texas, EUA, onde se manteve durante cinco anos, fazendo uma breve passagem pela Universidade de Columbia, de Nova Iorque, até se fixar, em 1972, como professor de poética, na Universidade de Boston, Massachusetts.

                      Estreou-se em Portugal com uma série de poemas publicados na revista Portucale. Foi um dos fundadores da revista de poesia Távola Redonda, juntamente com Ruy Cinatti, António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira. Os seus poemas foram traduzidos para o inglês, castelhano, alemão e holandês, entre várias outras línguas. É descrito como possuindo uma linguagem pouco adjectivada mas rica em imagística, reveladora de um mundo misterioso oculto na vulgaridade das coisas . Alberto de Lacerda é também autor de colagens, tendo chegado a expor, nos anos 80, na Sociedade Nacional de Belas Artes, de Lisboa.

                      Faleceu em Londres a 26 de Agosto de 2007. Apesar do número relativamente pequeno de obras publicadas, Lacerda deixou um vasto espólio e de grande importância, composto, nomeadamente, por correspondência com grandes figuras da cultura, estrangeiras e portuguesas, tais como Maria Helena Vieira da Silva e o marido Árpád Szenes ou ainda Paula Rego.

                      Obras publicadas

                      Poesia
                      • 1955 - 77 Poemas
                      • 1961 - Palácio
                      • 1963 - Exílio
                      • 1969 - Selected Poems
                      • 1981 - Tauromagia
                      • 1984 - Oferenda I
                      • 1987 - Elegias de Londres
                      • 1988 - Meio-dia (Prémio Pen Club)
                      • 1991 - Sonetos
                      • 1994 - Oferenda II
                      • 1997 - Átrio
                      • 2001 - Horizonte
                      • ???? - Mecânica Celeste

                      Fonte: pt.wikipédia

                       

                       

                      Acervo de Alberto de Lacerda depositado na Fundação Mário Soares

                      Lisboa, 19 Jun 08 (Lusa) - O espólio documental e artístico de Alberto de Lacerda, incluindo uma arca cheia de cartas e manuscritos, vai ficar depositado na Fundação Mário Soares, em Lisboa, segundo um protocolo assinado hoje pelo herdeiro do poeta e o presidente daquela instituição.

                      "É um acervo imenso, com milhares de papéis, quadros, cartas, fotografias, discos. Foi preciso um camião TIR mais um atrelado para trazer tudo para Lisboa", disse à agência Lusa o herdeiro, Luís Amorim de Sousa.

                      "Agora vai ser tudo digitalizado e partilhado com o público", acrescentou.

                      O protocolo foi assinado pelo antigo presidente da República Mário Soares e Luís Amorim de Sousa, com a presença do ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro.

                      Alberto de Lacerda, nascido em Mocambique em 1928, morreu em Agosto passado em Londres, cidade onde viveu a maior da sua vida e onde publicou o primeiro livro, intitulado "77 Poemas".

                      Foi amigo de figuras proeminentes da cultura portuguesa, entre as quais Vieira da Silva, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego e Mário Cesariny, e conheceu também Manuel Bandeira, Jorge Guillén, Octavio Paz, René Char e Bertrand Russel.

                      A sua obra publicada está reunida nos livros "Oferenda I e II" (dois volumes), "Átrio" e "Horizonte", todos eles editados pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda

                       

                      POEMAS:

                      Hino ao Tejo

                       

                      Ó Tejo das asas largas

                      Pássaro lindo que se ouve em todas as ruas de Lisboa

                      Ó coroa duma cidade maravilhosa

                      Ó manto célebre nas cortes do mundo inteiro

                      Faixa antiga duma cidade mourisca

                      Fênix astro caravela liquida

                      Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer

                      Deslizar sem desastres sem fado sem presságio

                      Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas

                      Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti

                      E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas

                      Meu irmão mais velho

                      Ilha de Moçambique

                      Desfeitos um por um os nós sombrios,

                      Anulada a distancia entre o desejo

                      E o sonho coincidente como um beijo,

                      Exalei mapas que exalaram rios.

                       

                      Terra secreta, continentes frios,

                      Ardei à luz dum sol que é rumorejo

                      Para lá do que eu sou, do que eu invejo

                      Aos elementos, aos altos navios!

                       

                      Trouxe de longe o palácio sepulto,

                      A cobra semimorta, a bandarilha,

                      E esqueci poços, prossegui oculto.

                       

                      Desdém que envolve por completo a quilha,

                      Sou bem o rei saudoso do seu vulto,

                      Vulto que existe infante numa ilha.

                      quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

                      Alberto Augusto Miranda

                       alberto_miranda

                      Alberto Augusto Miranda (Vila Real, 21 de Fevereiro de 1956) é um escritor português, tendo publicadas 16 obras de poesia, teatro e ficção, para além de traduções.

                      Das suas obras constam os seguintes títulos:

                      Dá-me Com A Noite (poesia),

                      O_Estando (poesia),

                      Nojo (teatro),

                      Borbotom (teatro)

                      Encenou Ninguém Ama Ema a partir de Húmus de Raul Brandão e Sítios Sitiados de Luiza Neto Jorge (Lisboa, 2001, interpretação de João Ascenso e Sónia Alves.

                      Bases laterais: Carla Simões e Aurélie Quilgars);

                      Três Quadros de Virgínia Woolf, com Alexandra Bernardo, Célia Machado, Laura Moura e Sónia Alves (Lisboa, 2005).

                      Um dos seus últimos trabalhos é a encenação do poema Branco e Vermelho de Camilo Pessanha, estreado em Lisboa em Fevereiro de 2006, com interpretação de Alexandra Bernardo

                      Texto: pt.wikipedia

                      Mais informação em: Projecto Vercial

                      poemas2

                      POEMA

                      DÁ-ME COM A NOITE

                      dá-me com a noite

                      esbofeteia a fresta,

                      o Real diante de mim

                      dá-me com a noite

                      com a tortura de voltar

                      e a cegueira de ser

                      embora tudo embora nada

                      diz o nome difícil depois da monda

                      diz-me que depois da monda

                      me dirás o nome que nunca dirás

                      faz-te gesso no trapézio

                      na ventura do Senhor Aplauso

                      dos aflitos – oh transversal

                      pedra de sémola ao trabalho

                      atasca em lâmpadas

                      pneumonias e sangues de saber

                      imagens de povos perdidos

                      e o homem que Anunciava

                      cospe-me! exibe-me!

                      dá-me com a noite!

                       

                      Mais Poemas em:

                      Projecto Vercial

                      A Garganta da Serpente

                      Notivaga

                      terça-feira, 6 de janeiro de 2009

                      Al Berto

                      al berto

                      BIOGRAFIA

                      Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares,  nasceu em Coimbra a  11 de Janeiro de 1948 e faleceu em  Lisboa, 13 de Junho de 1997, poeta, pintor, editor e animador cultural português, freqüentou o curso de Pintura da Escola Antônio Arroio e o curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. Em 1967 exilou-se em Bruxelas, onde frequentou a École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels. Em 1971 abandonou definitivamente a pintura, assumindo-se cada vez mais como "autor de textos literários". Em finais da década de 70, publicou À Procura do Vento num Jardim d'Agosto (1977), iniciando o percurso literário que o tornaria um dos poetas mais importantes da sua geração. Numa escrita impregnada de lirismo, reflete experiências de erros e excessos, de amor e desamor, aliadas aos espectros sempre presentes da morte e da solidão. Insinuando um "novo romantismo", trata-se de um autor que concentra em si, num registro freqüentemente confessional, algumas características da poesia portuguesa da década de 80: a melancolia obsessiva, o narcisismo, uma profunda nostalgia. Em 1988 recebeu o Prémio Pen Club de Poesia pela obra O Medo.

                      OBRAS

                      Poesia
                      • 1977 - À Procura do Vento num Jardim d'Agosto.
                      • 1980 - Meu Fruto de Morder, Todas as Horas.
                      • 1982 - Trabalhos do Olhar
                      • 1983 - O Último Habitante.
                      • 1984 - Salsugem.
                      • 1984 - A Seguir o Deserto.
                      • 1985 - Três Cartas da Memória das Índias
                      • 1985 - Uma Existência de Papel.
                      • 1987 - O Medo (Trabalho Poético 1974-1986).
                      • 1989 - O Livro dos Regressos.
                      • 1991 - A Secreta Vida das Imagens.
                      • 1991 - Canto do Amigo Morto.
                      • 1991 - O Medo (Trabalho Poético 1974-1990).
                      • 1995 - Luminoso Afogado.
                      • 1997 - Horto de Incêndio
                      • 1998 - O Medo.
                      • 2007 - Degredo no Sul

                      Prosa
                      • 1988 - Lunário
                      • 1993 - O Anjo Mudo
                      • 2006 - Apresentação da Noite

                      POEMAS

                      Dizem que a paixão o conheceu


                      dizem que a paixão o conheceu
                      mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
                      senta-se no estremecer da noite enumera
                      o que lhe sobejou do adolescente rosto
                      turvo pela ligeira náusea da velhice
                      conhece a solidão de quem permanece acordado
                      quase sempre estendido ao lado do sono
                      pressente o suave esvoaçar da idade
                      ergue-se para o espelho
                      que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
                      dizem que vive na transparência do sonho
                      à beira-mar envelheceu vagarosamente
                      sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
                      nunhum ofício cantante
                      o tenha convencido a permanecer entre os vivos



                      E ao anoitecer


                      e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
                      deixas viver sobre a pele uma criança de lume
                      e na fria lava da noite ensinas ao corpo
                      a paciência o amor o abandono das palavras
                      o silêncio
                      e a difícil arte da melancolia



                      Há-de flutuar uma cidade


                      há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
                      pensava eu... como seriam felizes as mulheres
                      à beira mar debruçadas para a luz caiada
                      remendando o pano das velas espiando o mar
                      e a longitude do amor embarcado
                      por vezes
                      uma gaivota pousava nas águas
                      outras era o sol que cegava
                      e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
                      os dias lentíssimos... sem ninguém
                      e nunca me disseram o nome daquele oceano
                      esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
                      punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
                      assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
                      se espantasse com a minha solidão
                      (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
                      um dia houve
                      que nunca mais avistei cidades crepusculares
                      e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
                      inclino-me de novo para o pano deste século
                      recomeço a bordar ou a dormir
                      tanto faz
                      sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

                      (ler mais poemas em : astormentas)

                      Mais informação: pt.wikipedia